Copiar não vale

“Antigamente, muito antigamente, quando a escola ainda era risonha e franca, os professores eram velhos e tinham cãs (ainda haverá hoje quem saiba o que isto quer dizer, para lá dos fanáticos das palavras cruzadas?) e barbas brancas que infundiam respeito e criavam simpatia (ainda haverá hoje alguém que recorde esta poesia que a minha geração aprendeu de cor?) – copiar era coisa muito feia.

Era-se penalizado por isso.

Podia reprovar-se num exame por isso.

“Ser apanhado a copiar” era expressão temida por causa das consequências que trazia consigo.

Claro que não havia certamente aluno nenhum que não o tentasse em momento de aperto, pedindo ao colega da frente que o deixasse olhar para uma resposta que lhe escapava; ou trazendo de casa minúsculas cábulas que enfiava nos punhos da camisola ou noutro lugar mais propício a uma rápida consulta, cada um tentando inventar maneiras mais subtis e originais de as fazer, sem se lembrarem de que os professores também tinham passado por essa fase e sabiam o que eles próprios também tinham “inventado” em matéria de copianço…

Mas todos sabiam que estavam a copiar e que isso não era exactamente uma coisa muito louvável…

Hoje em dia são os professores que ensinam os alunos a copiar. Que os incentivam a copiar.

Hoje em dia a cópia está institucionalizada

Hoje em dia os alunos nem entendem que possa ser de outra maneira.

Chamem-lhe o que quiserem “descarregar”, “fazer download”, o que quiserem: nunca deixará de ser uma cópia.

Eu chego a uma escola e ouço “Os alunos fizeram muitos trabalhos a seu respeito”. E encontro 50, 100, 200 trabalhos rigorosamente iguais; iguais, por sua vez, aos que já tinha encontrado na escola anterior, e na outra, e na outra, com os mesmos erros (nem a Wikipedia nem o Google são infalíveis…), com as mesmas desactualizações, com palavras difíceis de que nenhum deles sabe sequer o significado, etc..

Os meninos são ensinados a mexer num computador, a carregar nos botõezinhos necessários para que o texto apareça – mas depois ninguém lhes ensina que isso não basta, e que trabalhar e pesquisar não é isso. Isso é, pura e simplesmente, copiar. E, como se dizia no meu tempo, copiar não vale.

É claro que, quando lhes tento explicar isto, eles nem entendem de que é que eu estou a falar.

O pior é que os professores, quase todos eles muito jovens, também não.

Sorriem, ah como os meninos se esforçaram (?), ah como os trabalhos estão tão bem apresentados, e eu acabo por sorrir também, eu entendo que hoje em dia ser professor não é fácil – mas fico a pensar o que vão aqueles meninos fazer depois, quando mais tarde lhes exigirem mesmo outro tipo de pesquisa e eles não souberem o que é que lhes estão a pedir.

É evidente que, como em tudo, há uma ou outra (mas tão rara…) excepção, quase sempre até em escolas com grandes dificuldades e longe dos grandes centros, onde a tecnologia ainda não chegou em força e eles têm, coitados, de puxar pela cabeça…

E se há, é porque é possível.”

Alice Vieira, Jornal de Notícias, 03 de Fevereiro de 2008

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